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sexta-feira, 10 de março de 2017

[ENTRETENIMENTO] Espetáculo Branco - O Cheiro do Lírio e do Formol estreia em São Paulo




Peça aborda tema polêmico ao falar do branco na sociedade racista 

Com texto de Alexandre Dal Farra a peça Branco - O Cheiro do Lírio e do Formol estreia na MIT-SP – 4º Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, com direção de Alexandre Dal Farra e Janaina Leite, que está no elenco ao lado de André Capuano e Clayton Mariano. Após a MIT-SP, a peça entra em temporada no Centro Cultural São Paulo.

O espetáculo aborda tema polêmico, onde a tentativa de criticar o racismo naturalizado do branco a partir do seu próprio ponto de vista autodestrutivo e autocrítico dá ensejo à criação de uma narrativa fragmentária, estruturada em camadas complementares e contraditórias. 

Dal Farra explica que "não se trata de uma peça sobre racismo, mas sim, sobre o lugar de privilégio que o branco ocupa em uma sociedade racista como a brasileira”. Janaina Leite completa que a peça lança a questão “há um lugar em que o branco pode ocupar nesse caminho para a desconstrução do racismo estrutural? Como podemos ocupar um lugar autocrítico nessa estrutura que nos beneficia? 

Na MIT-SP 2017, o espetáculo integra o eixo curatorial que aborda o racismo e o protagonismo negro. A proposta da curadoria é a de abrir espaço para que sejam apresentados vários pontos de vista sobre a questão do racismo, na tentativa de que o debate ocorra de forma ampla e abrangente.

Sinopse

Uma família de classe média, formada por um menino, seu pai e sua tia, vive um cotidiano comum, até que alguns acontecimentos externos forçam essas pessoas a terem que lidar com o que existe do lado de fora da casa. Essa trama lacunar e incompleta é contada de forma fragmentária alternando com uma outra camada narrativa que conta o próprio processo de criação da peça – trazendo as diversas tentativas de estruturar um olhar autocrítico, do próprio branco, sobre o seu racismo naturalizado. Uma terceira camada, ainda, traz fragmentos de outros textos – foram três ao todo – escritos ao longo do processo de criação.

O espaço onde a peça se passa é formado por elementos pertencentes ao universo privado, sem uma unidade que gere a sensação de um lar. Alguns poucos móveis ocupam o espaço cênico de maneira descuidada e espalhada. "Existe um gesto geral na concepção cênica e, principalmente, em relação ao espaço, que aponta para o fato de que o branco já o possui. O uso descuidado, espalhado, do palco é um signo do seu privilégio formativo. Usufruem daquilo que lhes pertence com a tranquilidade de herdeiros – ainda que sejam herdeiros de bem pouca coisa, quase pobres, mas ainda assim, portam-se como herdeiros, este é o seu ponto de partida", explica a atriz e diretora Janaina Leite.

A narrativa do processo de criação da peça mostra as próprias dificuldades e contradições que envolveram a sua criação. "A certa altura, ficou claro que a única forma de dar conta das contradições que o próprio gesto de criar uma peça sobre racismo envolvia, sendo branco, era incluir na peça a própria escrita dela e as dificuldades que ela envolveu", diz Dal Farra. 

Trata-se de uma aproximação do tema racismo, por parte de brancos, em um movimento de autocrítica. “A peça não procura de forma alguma, falar pelo outro, nem muito menos dar voz ao negro, mas sim, estruturar um olhar crítico do branco sobre si mesmo para desconstruir-se enquanto agência reprodutora do dispositivo do racismo, naturalizado e estrutural”, continua Dal Farra.

Tal movimento parece ser inédito no território artístico, ao menos no Brasil, mas na seara teórica, já há antecedentes. A teórica brasileira Lia Vainer Schucman, por exemplo, ao trazer para o país o conceito de branquitude crítica, já largamente utilizado nos EUA e em outros países (whiteness), propõe justamente estudar as formas como o racismo é um tipo aprendizado cultural. 

Trata-se, portanto, de falar sobre a estrutura racista, sobre a sua naturalização, sobre a forma como o branco se forma e forma o seu olhar objetificante sobre o outro, o negro, e de criticar esse olhar de dentro dele mesmo. Essa autoanálise crítica, no entanto, corre sempre o risco de se transformar em um tipo de reafirmação das questões do branco em detrimento das questões do negro, por isso os vaivéns intensos e profundos que o processo de criação da peça sofreu. 

O território é polêmico, por isso as dificuldades e riscos que a abordagem envolve levaram à necessidade de que o próprio processo de criação fosse incorporado ao resultado final da obra. "Nesse sentido, é impossível fugir do fato de que a nossa própria atitude de parar para pensar sobre a nossa branquitude, de dentro da nossa posição privilegiada, é algo que não anula o privilégio imediatamente, mas, utiliza-o para destruir a ele próprio", coloca Janaina.

As três camadas não se comunicam diretamente entre si. "As cenas da família se estruturam a partir da falta. É como se algo não estivesse ali o tempo todo", diz Dal Farra. À medida que a narrativa de processo avança, as cenas da família também sofrem uma pressão crescente, de uma força externa, que, no entanto, não chega a alterar realmente o seu cotidiano. Tal movimento é acompanhado por uma série de acontecimentos narrados na outra camada, que reproduz o processo de criação. 

"Lendo o texto, percebemos que as cenas da família são como reflexos deformados do próprio depoimento sobre o processo", diz o ator e criador André Capuano. A terceira camada que estrutura a peça é formada por trechos do primeiro texto escrito por Dal Farra. "Escolhi as partes do primeiro texto que, de certa forma, davam munição para que toda essa tentativa de criação fosse mostrando os seus próprios buracos", pontua o autor e diretor.

Serviço

MIT-SP - 4º MOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO DE SÃO PAULO

Dias 17, 18 e 19 de março – Sexta-feira às 18h; sábado às 21h e domingo às 20h30.

Local: Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho. Capacidade: 321 lugares. Acessibilidade.

Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (meia-entrada).

Temporada CENTRO CULTURAL SÃO PAULO

De 7 de abril a 21 de maio – Sextas e sábados 21h e domingos 20h.

Ingressos: Pague quanto puder – De R$1 a R$5 (somente na bilheteria a partir de 2 horas antes da peça) e de R$10 a R$30 pelo Ingresso Rápido.

Atenção: Dias 28, 29 e 30 de abril não haverá espetáculo, excepcionalmente.

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO - Sala Jardel Filho. Telefone – 11 3397-4002.

R. Vergueiro, 1000 - Paraíso - São Paulo. Capacidade: 321 lugares. Acessibilidade.

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